
No mesmo discurso em que se
declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai...” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.
Introdução
Deparei-me com a seguinte máxima estampada em uma rede social atribuída a um pastor: “Humildade é aquela virtude que, quando você percebe que a tem, já a perdeu”Andrew Murray. A frase parece resumir uma ideia grandiosa e completa em si mesma, mas a ideia se sustenta à luz das Escrituras?
Andrew Murray foi um pastor que teve o seu ministério eclesiástico influenciado pelo pai, um pastor vinculado à Igreja Presbiteriana da Escócia, que, por sua vez, mantinha estreita relação com a Igreja Reformada da Holanda. Como pastor, Murray é caracterizado no meio cristão como alguém que possuía uma profunda e ardente espiritualidade. Pelos idos de 1877, Murray fez inúmeras conferências acerca do tema santidade. Ele era adepto de uma teologia conservadora, opondo-se ao liberalismo, enfatizando em seus escritos a necessidade de uma consagração integral e absoluta a Deus através da oração e da santidade.
Como a frase foi proferida pelo Pr. Murray e sintetiza uma espécie de louvor à humildade, muitos cristãos abraçam o conteúdo da frase como verdade, porém, vejo a necessidade de analisa-la à luz das Escrituras.
Considerando que o Senhor Jesus apresentou-se como ‘manso’ e ‘humilde’ de coração, e comparando com a ideia exposta na frase do Pr. Murray, temos a seguinte interrogação: Jesus deixou de ser humilde quando afirmou ser manso e humilde?
Se ‘humildade é uma virtude que, quando se percebe que se tem, já perdeu’, o que dizer de Cristo quando afirmou ser manso e humilde de coração? Considerando a frase do Pr. Murray como verdadeira, teríamos que concluir que Jesus perdeu a humildade por entender e declarar ser humilde.
"Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas" ( Mt 11:29 )
Se admitirmos que o pastor Andrew foi verdadeiro em sua asserção, teremos que admitir que, naquele instante o Senhor Jesus deixou de ser humilde, por conseguinte, também faltou com a verdade.
Se admitirmos que Cristo falou a verdade, ou seja, que o seu coração realmente era manso e humilde, temos que admitir que o Pr. Murray se expressou de modo equivocado.
Cristo é a verdade, e as Escrituras dão testemunho de que nunca houve engano em sua boca, portanto, não dá para aceitar que seja uma expressão verdadeira a frase atribuída ao Pr. Andrew Murray.
"E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca" ( Is 53:9 );
"O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano" ( 1Pe 2:22 ).
A comparação acima evidencia o perigo em aceitar como verdadeiras frases de efeito, sem analisar a ideia à luz das Escrituras.
Para analisar a frase, ou o pensamento à luz das Escrituras, você precisa dispor de conhecimento bíblico. Existe a necessidade de você estar alimentado com sólido alimento, pois o sólido alimento é o que torna o cristão apto a distinguir tanto o bem quanto o mal, como se lê: "Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal" ( Hb 5:14 ).
Humildade
Quando Jesus se apresentou dizendo: - ‘Sou manso e humilde de coração’, o termo grego traduzido por humilde é ‘ταπεινος’, transliterado ‘tapeinos’.
Humilde –“5011 ταπεινος tapeinos de derivação incerta; TDNT - :1,1152; adj 1) que não se levanta muito do chão 2) metáf. 2a) como uma condição, humilde, de grau baixo 2b) abatido pela tristeza, rebaixado, deprimido 2c) humilde de espírito, humilde 2d) num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão”Dicionário Bíblico de Strong.
“ταπεινος (tapeinos), primariamente “aquilo que é baixo e não sobe muito do chão”, como na Septuaginta em Ez 17.24. daí, metaforicamente, significa “humildemente, de nenhum grau” (2 Co 10.1; cf. Lc 1.52; Tg 1.9). Contraste com os termos tapeinophrosune, “humildade de mente”, e tapeinoõ, “humilhar””Dicionário VINE
Um dicionário secular apresenta as seguintes definições:
Humilde - “adj. Que tem ou aparenta humildade, que se diminui voluntariamente: uma criatura humilde. Que denota respeito, deferência. Medíocre, baixo, obscuro: exercer funções humildes. (Usa-se como expressão de modéstia e civilidade: sou seu humilde criado.) S.m. Pessoa humilde: sempre protegeu os humildes” Dicionário online de português <https://www.dicio.com.br/humilde/>.
Naquele momento Jesus não estava falando da sua aparência física, não estava se diminuindo voluntariamente e nem estava falando das mazelas decorrentes da sua condição social ou econômica como carpinteiro. Não! Ele foi específico: - “Sou manso e humilde de coração”.
Quando Jesus declarou ser manso e humilde não estava se apresentando como alguém respeitoso, nem estava emocionalmente triste ou exercendo uma função medíocre. Não!
Quando Jesus disse ser manso e humilde estava exigindo que os homens se sujeitassem a Ele na condição de servos.
As definições de humilde que constam no dicionário online de português não se encaixam na exposição de Cristo, até porque Ele não esta se diminuindo, ou sendo respeitoso, antes estava exigindo sujeição (diminuíssem) a Ele.
Considerando o exposto no Dicionário Bíblico de Strong, vale destacar que Jesus não estava falando de suas emoções e sentimentos, como se estivesse triste, abatido, deprimido, etc., ou de sua condição socioeconômica: pobre, oprimido, etc. Ele também não está se apresentando como alguém que ‘não se levanta muito do chão’, no sentido de condição modesta e nem como alguém que foi abatido, humilhado.
Na verdade, ao se apresentar como ‘manso e humilde de coração’, Cristo reivindicou seu senhorio, dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim...” ( Mt 11:29 ). Jesus enfatiza que é necessário tomar sobre si o seu jugo e carregar o seu fardo ( Mt 11:30 ).
No mesmo discurso em que se declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai...” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.
Quando Jesus diz: ‘todas as coisas me foram entregues por meu Pai’, estava se apresentado como o Filho de Deus prometido a Davi, o rebento da raiz de Jessé ( Is 11:1 -4 ; 2Sm 7:14 ).
Resta considerar um último sentido do termo apontado por Strong: ‘num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão’. Ora, Jesus não era alguém que se comportava de modo humilhante, subserviente. Não encontramos nas Escrituras Jesus se submetendo aos homens, quem quer que eles fossem ( Mc 12:14 ; Lc 13:32 ).
Para Strong humilhar-se no mau sentido é ‘submeter-se à servidão’, mas, se olharmos para as profecias acerca do Cristo, veremos que Ele foi escolhido por Deus para ser o servo do Senhor ( Is 49:1 -6). Cristo foi nomeado ‘o Sevo do Senhor’ quando foi dito: - “Tu és o meu servo” ( Sl 49:3 ). Cristo foi formado desde o ventre para ser servo, com a missão de trazer a casa rebelde (Jacó) a Deus e ajuntar a nação escolhida (Israel). Mas, Deus não restringiu a missão de Cristo, pois ela não se limitou à casa de Israel: Cristo também foi dado por Deus como Luz para os gentios ( Is 49:6 -7).
Analisando o termo ‘humilde’ com a visão do homem do nosso tempo, é compreensível a concepção de que há um mau sentido no termo ‘humilde’ por estar associada à escravidão, à crueldade do ser humano, porém, é possível considerar que há um ‘mau sentido’ quando o termo é utilizado para indicar que o homem submeteu-se a Deus?
Vale destacar que consta nos profetas que Deus fez menção do Cristo desde a fundação do mundo. Cristo foi colocado na aljava de Deus como uma flecha limpa e fez a boca d’Ele como uma espada aguda. Flecha na aljava aponta para a filiação divina do Cristo ( Sl 127:4 -5).
Deus concede apenas aos filhos o privilégio de servirem a Ele. Ser servo de Deus é honroso, de modo que não cabe ao termo ‘humildade’ um mau sentido quanto a ser servo de Deus. O mau sentido de ‘humildade’ decorre dos eventos recentes na historia da humanidade "Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus" ( 1Pd 2:16 ).
Acerca de Cristo profetizou Davi: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” ( Sl 40:6 -8; Hb 10:5 -10).
Apesar das variantes nas traduções: a) ‘os meus ouvidos abriste’, e; b) ‘corpo me preparaste’, o Salmo descreve a submissão voluntária do servo do Senhor à vontade de Deus. Cristo é o servo eleito de Deus, e o Salmista descreve esta sujeição através de uma prescrição na lei de Moisés, pois o escravo que ganhava a liberdade e que quisesse continuar sujeito ao seu senhor teria a ‘orelha furada’ pelo seu senhor diante dos lideres do povo (à porta). Temos aí a figura do servo voluntário, que se sujeita ao seu senhor porque o ama e se sente bem "Então tomarás uma sovela, e lhe furarás a orelha à porta, e teu servo será para sempre; e também assim farás à tua serva" ( Dt 15:17 ).
Ao apresentar-se como manso e humilde, Jesus não estava falando acerca do que estava sentido, antes estava apontando para a sua condição. Quando Ele disse: Sou manso e humilde de coração, estava dizendo, eu sou o Servo do Senhor enviado de Deus conforme a predito nas Escrituras.
Jesus foi comissionado a ensinar aos homens as coisas de Deus, e como servo resignou-se a falar somente o que o Pai estabeleceu nas Escrituras sem nada acrescentar ou diminuir "E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito" ( Jo 12:50 ); “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada” ( Jo 8:28 -29).
O termo ‘humilde’ na fala de Jesus aponta para a condição dele como servo, no sentido de quem ‘se submete à servidão’. Segundo a visão do homem da antiguidade não há como considerar um mau sentido em ser ‘humilde’, ou seja, ser ‘servo’ de Deus. Sujeitar-se a Deus é uma honra, e estar a serviço de Deus é uma honra que ninguém toma para si se não for chamado “E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão” ( Hb 5:4 ; Is 49:3 ).
A missão do servo do Senhor era proclamar a mensagem que dá descanso e refrigério a alma "Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele" ( Jr 6:16 ); "Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir" ( Is 28:12 ).
Por intermédio de quem Deus daria descanso. Por intermédio de Cristo, a pedra provada, bem firme e fundada. Por intermédio de Cristo, o servo eleito, a paz foi concedida a todos os homens "Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas" ( Is 42:6 -7); “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” ( Is 28:16 ).
Cristo é o servo do Senhor por sujeitar-se de coração à vontade do Pai: "Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra" ( Jo 4:34 ); "Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" ( Jo 6:38 ); "Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo" ( Hb 10:9 ).
Cristo é o servo do Senhor no qual Deus teve prazer ( Is 42:1 ; Mt 3:17 ), porque Ele se resignou a fazer a vontade de Deus em todo o tempo "Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua" ( Lc 22:42 ).
O termo ‘humilde’ não se refere a uma questão de foro íntimo, pessoal, subjetivo, antes aponta para algo objetivo. A humildade decorre da sujeição a um mandamento, o mesmo que submissão, obediência, fidelidade. Sem a ordem, sem o mandamento, sem a figura do senhor que ordena, não há humildade “Sendo fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés em toda a sua casa” ( Hb 3:2 ).
A exortação para dar o seu melhor para Deus não contempla a humildade de Jesus, antes exalta a voluntariedade dos homens. O voluntarioso é altivo, é aquele que anula a vontade do Senhor expressa no mandamento e que realiza a própria vontade sob o argumento de que está servindo, como foi o caso do rei Uzias, que ousou entrar no templo e oferecer holocausto a Deus. Agiu guiado por intuição (carnal compreensão).
Obstinado - “authades (aúôriòriç), “que agrada a si mesmo" (formado de autos, "mesmo, próprio”, e hedomai, “agradar”), denota aquele que, dominado por interesse pessoal e em desconsideração de outros, afirma arrogantemente a própria vontade, “obstinado, rebelde, voluntarioso"Dicionário VINE.
Os filhos de Arão, Nadabe e Abiú experimentaram as consequências da altives quando ofereceram fogo estranho ao Senhor e foram rejeitados: “E OS filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o SENHOR, o que não lhes ordenara” ( Lv 10:1 ); “Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o SENHOR seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso” ( 2Cr 26:16 ).
A forma em que Davi fez a condução da arca da aliança exala a voluntariedade, o que trouxe a punição divina, mas a correção de atitude segundo a lei é submissão: “E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” ( 2Sm 6:9 ).
Ao despir-se da sua gloria para ser introduzido no mundo, no Verbo de Deus houve prontidão de vontade, pois tinha autonomia de fazê-Lo. Mas, após se fazer homem, ou seja, achado na forma de servo, o Verbo eterno não foi voluntarioso propondo sacrifício ou oferta a Deus ( Hb 10:5 ; Hb 5:4 -5), antes resignou-se a obedecer tudo o que foi prescrito pelo Pai ( Hb 10:9 ).
Fl 2.7-8
A obediência é sacrifício agradável, é a disposição em resignar-se a cumprir a determinação de Deus. Para compreendermos o valor da obediência e do voluntarioso, é necessário observar o crente Abraão quando teve que apresentar o seu único filho em holocausto em obediência a Deus. Abraão não queria sacrificar o seu único filho, mas seguiu para o monte Moriá em obediência. O que estava sendo posto à prova no holocausto de Isaque era a obediência de Abraão, e não a sua voluntariedade"Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros" ( 1Sm 15:22 ).
Voluntariedade é uma disposição do homem em agradar a Deus através do que possui ou representa, mas o homem só agrada a Deus quando obedece à sua palavra. É Deus quem estabelece o que é agradável a Ele.
A humildade é condição de quem se sujeita ao Senhor como servo:
“Isto está claro em passagens como o Sl 86, onde Davi confessa que, embora ele seja o rei de Israel, ele é humilde (santo) e que, embora desfrute das riquezas do reino, ele é necessitado (confia em Deus). Com base nestas condições espirituais, ele ora pela resposta do concerto de Deus: “Guarda a minha alma, pois sou santo; ó Deus meu, salva o teu servo, que em ti confia” (Sl 86.2). As bênçãos buscadas são eternas (Sl 86.11-13) e temporais (Sl 86.14-17)”Dicionário VINE.
Embora a identificação do paralelismo seja perfeita, contudo a observação de Vine não se refere ao rei Davi, antes o Salmo 86 é messiânico, uma profecia acerca do filho de Davi - Cristo. Como rei na sua primeira vinda, Cristo é o pobre (humilde) e necessitado (confia em Deus).
A condição ‘pobre’ e ‘necessitado’ não é de bens materiais. São figuras extraídas da lei, pois Deus deixou a sua casa como abrigo dos pobres e necessitados ( Dt 26:12 ), referência de socorro e subsistência. Os termos apontam para aquele humilde (separado como servo) porque é necessitado (confia em Deus).
O servo (humilde) é santo (fiel) e pede que o seu Senhor guarde a sua alma, livrando-a do poder da morte ( Sl 86:13 ).
Manso
Semelhantemente, na declaração: ‘Sou manso e humilde de coração’ o termo ‘manso’ na frase em comento não é uma questão de foro íntimo, subjetiva, antes possui valor objetivo. A ‘mansidão’ de Cristo não decorre da relação com o próximo, mas da relação entre Ele e o Pai.
“praütes ou p ra o /e s, forma mais antiga (TTpaúrriç ou Tipaoníç) denota “mansidão”. Em seu uso na Escritura, no qual tem um significado mais extenso que nos escritos gregos seculares, não consiste só no “comportamento exterior da pessoa; nem ainda em suas relações para com o próximo; tampouco na sua mera disposição natural (...) está relacionado de perto com a palavra tapeinophrosune [humildade], e resulta diretamente dela (E f 4.2; Cl 3.12; cf. os adjetivos na Septuaginta em S f 3.12, ‘humilde e pobre'); [...] é somente o coração humilde que também é manso, e o qual, como tal, não luta contra Deus e mais ou menos se debate e combate com Ele (...) O significado de praütes “não é expresso prontamente em nosso idioma, pois os termos mansidão, brandura, comumente usados, sugerem fraqueza e pusilanimidade em maior ou menor extensão, ao passo que praütes não diz nada disso. Não obstante, é difícil encontrar uma tradução menos aberta à objeção que ‘mansidão’; gentileza’ foi sugerido. Mas como praütes descreve uma condição da mente e coração, e visto que ‘gentileza’ é apropriada preferivelmente para ações, esta palavra não é melhor que a outra. Deve ser entendido claramente que a mansidão manifestada pelo Senhor e recomendada para o crente c o fruto de poder. A suposição comum é que quando o homem é manso, é porque ele não pode se ajudar; mas o Senhor era ‘manso’ porque Ele tinha os recursos infinitos de Deus à Sua disposição” Dicionário VINE.
Da relação, Senhor e Servo estabelecida entre o Pai e o Filho, decorre a condição ‘manso’ do Filho, e como Deus quer salvar todos os homens, a submissão do servo proporciona aos homens a graça da redenção.
Competia ao Servo do Senhor substituir a desobediência de Adão pela obediência para que, pela obediência do Servo do Senhor, muitos possam ser feitos justos “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).
Para compreender a declaração de Cristo, vale destacar novamente que, no contexto, Jesus havia acabado de declarar que‘Todas as coisas me foram entregues pelo meu Pai’. A qualidade de ‘manso’ se dá pelo poder investido pelo Pai no Filho, o Servo que se sujeitou a vontade do Pai em tudo “Sairei na força do Senhor DEUS, farei menção da tua justiça, e só dela” ( Sl 71:16 ).
O Filho é manso mesmo quando propõe seu senhorio aos homens, ele é manso mesmo quando a sua linguagem parece ser rude, como se lê na parábola dos trabalhadores contratados em horários diferentes "Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?" ( Mt 20:15 ).
Só é possível compreender a declaração de Cristo como ‘manso’ quando se compreende a total sujeição de Cristo a Deus, mesmo Deus entregando todas as coisas a Cristo “Sou como um prodígio para muitos, mas tu és o meu refúgio forte” ( Sl 71:7 ).
O termo grego traduzido por ‘entregue’ é παραδιδωμι, transliterado paradidomi, significa:
“1) entregar nas mãos (de outro), 2) transferir para a (própria) esfera de poder ou uso, 2a) entregar a alguém algo para guardar, usar, cuidar, lidar”Dicionário Bíblico de Strong.
Ao convidar os homens sobrecarregados e cansados em decorrência de um jugo duro e do fardo pesado que levam, Jesus prometeu alivio aos que se sujeitam a Ele. O convite expressa o poder de um Senhor que oferece um jugo suave e um fardo leve aos seus servos. Ele demonstra ter o poder de livrar qualquer homem da opressão e do cansaço do jugo do pecado, desde que se submeta ao seu senhorio.
As Escrituras testificam de Cristo ( Jo 5:39 ), apresentando dois aspectos pertinente àquele que declarou: - “Sou manso e humilde de coração”: a) era o Servo do Senhor, porque se sujeitou a vontade do Pai ( Sl 40:8 ), b) e Rei, porque todas as coisas foram entregues a Ele pelo Pai;
O Servo do Senhor foi descrito por Isaias como prudente e, quando exaltado, elevado e mui sublime: rei "Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime" ( Is 52:13 ); “Aumentarás a minha grandeza, e de novo me consolarás” ( Sl 71:21 ).
Este mesmo Servo trouxe um conhecimento específico, de modo que demanda por parte dos homens aprenderem este conhecimento e, em contra partida, serem aliviados de suas iniquidades, pois o jugo e a carga que pesa sobre os homens, o Servo do Senhor levou sobre si "Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si" ( Is 53:11 ).
O conhecimento das Escrituras é imprescindível para que os homens entendam, assim como as criancinhas que estavam no templo, que Cristo é aquele que veio em nome do Senhor: - “Hosana ao que vem em nome do Senhor” ( Mt 21:15 ), e lembrar do profetizado por Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta” ( Zc 9:9 ). Diante deles não estava um profeta, mas o filho de Davi, o rei de Israel, o Filho de Deus ( Mt 16:13 -14).
É um equivoco considerar que Jesus era manso no sentido de possuir um gênio submisso aos homens. Ele era manso por enfatizar a autoridade do Pai como servo. A autoridade que viam em Jesus decorria do seu ensino e, diferente dos escribas que transtornavam o mandamento de Deus, Cristo cumpriu o mando do Pai "Porquanto os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas" ( Mt 7:29 ); "E admiravam a sua doutrina porque a sua palavra era com autoridade" ( Lc 4:32 ).
O termo grego traduzido por manso é:
“4239 πραυς praus aparentemente, palavra primária, ver 4235; TDNT - 6:645,929; adj1) gentileza, bondade de espírito, humildade”Dicionário Bíblico de Strong
O termo hebraico traduzido por manso é:
“06035 anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT - 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico de Strong
A definição de ‘manso’ que consta dos dicionários não é o que Jesus enfatizou ao dizer: - “Sou manso e humilde de coração”.Cristo era ‘manso’ não no sentido de ser pobre, aflito, fraco, modesto, etc., mas em função da maneira em que, como Servo do Senhor cumpria a sua missão.
Os homens reputaram o Cristo como aflito e ferido de Deus, no entanto, o Cristo estava sendo manso, ou seja, não lançou mão das prerrogativas que possuía antes de ser encarnado, e nem antecipou as prerrogativas que receberia ao ser glorificado pelo Pai ‘... e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido’ ( Is 53:4 ).
O termo não deve ser compreendido do ponto de vista moral ou socioeconômico e nem como autocontrole.
No texto a seguir muitos veem autocontrole, mas nele fica estampada a obediência: “E aconteceu que, completando-se os dias para a sua assunção, manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém. E mandou mensageiros adiante de si; e, indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos, para lhe prepararem pousada, Mas não o receberam, porque o seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém. E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia” ( Lc 9:51 -56).
A orientação de Cristo aos discípulos vai além da ideia de autocontrole, pois deveriam identificar, compreender, a que espirito pertenciam, portanto, deviam se ater à missão recebida "Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido" ( Mt 18:11 ).
Como servo do Senhor, Jesus é o majestoso salvador que cavalgou prosperamente pela causa da verdade, mansidão e da justiça, e como Ele punha a confiança em Deus, Deus ensinou a Ele coisas terríveis “E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” ( Sl 45:4 ); "Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei" ( Sl 16:8 ).
Jesus era manso porque nada realizou entre os homens que promovesse uma glória própria. Apesar de o Pai entregar a Ele todas as coisas, tudo o que realizou visava a glória do Pai “Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei” ( Jo 12:28 ).
Cristo não promoveu a si mesmo buscando honra e glória ( Jo 8:50 ), tudo o que falou restringia-se ao mandamento que o pai determinou que falasse “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:49 -50).
Através do paralelismo antitético do provérbio: "Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos" ( Pv 16:19 ), em que ‘humilde de espírito’ é condição oposta a ‘soberbo’, verifica-se que o manso não visa lucro no exercício do seu mister, diferente dos soberbos querem o despojo "Por que, pois, não deste ouvidos à voz do SENHOR, antes te lançaste ao despojo, e fizeste o que parecia mau aos olhos do SENHOR?" ( 1Sm 15:19 ).
Apesar de ser herdeiro de todas as coisas e ter o poder de fazer todas as coisas assim como o Pai, Cristo abriu mão de qualquer ação autônoma “Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente” ( Jo 5:19 ).
Ser manso é ter o poder de realizar ou de se vingar, mas resignar-se a cumprir estritamente a vontade do seu Senhor. É ter à mão doze legiões de anjos, e não fazer uso do recurso por preocupar-se com a palavra do seu Senhor “Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” ( Mt 26:53 -54).
Ora, temos registrado nas Escrituras que Moisés foi o homem mais ‘manso’ da terra ( Nm 12:3 ). O termo manso (עָנָו anav) refere-se a um sentimento ou a uma virtude? O termo não aponta para questões do sentimento e nem da moral!
“Em sua primeira ocorrência a palavra descreve a condição objetiva como também a postura subjetiva de Moisés. Ele era completamente dependente de Deus e via o que era: ‘E era o varão Moises mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra’ (Nm 12.3)”Dicionário VINE.
“06035 עָנָו anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT - 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico Strong
Em nossos dias não é aprovado como manso um homem que lança mão de um homem para mata-lo ( Ex 2:12 ). Alguém gentil pode ser severo, pesado ao falar? ( Ex 4:10 ) Como o homem mais manso fica irado a ponto de arremessar e quebrar as tábuas dos mandamentos? ( Ex 32:19 )
As Escrituras designam Moisés como mui manso porque ele não defendia a sua causa ou posição, antes deixava a cargo de Deus defende-Lo. Por várias vezes o profeta Moisés foi desafiado por seus irmãos segundo a carne, e em nenhuma delas Moisés utilizou da autoridade concedida para vindicar a sua posição.
Miriam e Arão confabularam contra Moisés, e Deus interveio ( Nm 12:1 ). Eles até poderiam censurar Moisés por ter tomado para si uma mulher cusita, mas não tinham o direito de contestar o ministério e a autoridade de Moisés com base em uma questão familiar ( Nm 12:2 ); "A Deus não amaldiçoarás, e o príncipe dentre o teu povo não maldirás" ( Êx 22:28 ).
O povo revoltou-se contra Moisés e queriam eleger um líder que os conduzisse de volta ao Egito ( Nm 14:4 ). Moisés poderia se impor sobre o povo como líder, no entanto, ele se voltou para Deus se prostrando como servo ( Nm 14:5 ). Apesar de estar investido de poder sobre a casa de Deus, Moisés evidencia a força de Deus ( Nm 14:17 -19).
Coré, Datã e Abirão, juntamente com duzentos e cinquenta príncipes do povo, se opuseram a Moisés contestando a sua autoridade sob o argumento de que toda a congregação era santa ( Nm 16:3 ), e Moisés nada argumentou em seu favor. Apesar da ira que lhe sobreveio, porque nunca havia defraudado a nenhum dos filhos de Coré, Datã e Abirão ( Nm 16:15 ), deixou a cargo de Deus evidenciar quem era o escolhido para conduzir o povo ( Nm 16:28 ).
Por ser mui manso, Moisés fez com que os filhos de Israel apresentassem segundo o número de suas tribos doze varas. Após serem identificadas com os nomes das tribos, as varas foram deixadas de um dia para o outro na tenda da congregação, e no dia seguinte a vara de Arão havia florescido, as flores desabrocharam e produziam amêndoas ( Nm 17:8 ).
A Bíblia descreve Moisés como ‘mui’ manso. O termo hebraico traduzido por ‘mui’ é מְאֹ֑ד, significando:
“1) extremamente, muito subst. 2) poder, força, abundância n m 3) grande quantidade, força, abundância, extremamente 3a) força, poder 3b) extremamente, grandemente, muito (expressões idiomáticas mostrando magnitude ou grau) 3b1) extremamente 3b2) em abundância, em grau elevado, excessivamente 3b3) com grande quantidade, grande quantidade”Dicionário Strong.
Se comparado aos outros homens, Moisés era muito manso, e não foi nomeado ‘manso’, o que indicaria uma condição plena, porque certa feita, em lugar de obedecer a palavra do Senhor e falar a rocha, feriu a rocha duas vezes, de modo que não evidenciou ao povo quem lhes deu água a beber da rocha ( Nm 20:11 -12).
Cristo por sua vez apresenta-se manso e humilde, condição que O habilita a ensinar os seus ouvintes o conhecimento que lhes dará descanso “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).
Jesus não se defendeu, antes confiou inteiramente no Pai "Pois tu tens sustentado o meu direito e a minha causa; tu te assentaste no tribunal, julgando justamente" ( Sl 9:4 ); "O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente" ( 1Pd 2:23 ).
Quando Jesus foi incisivo, a intervenção visou a causa do Pai, como podemos ver quando Ele expulsou os cambistas da casa do Pai, mas em tal evento ele permaneceu manso “E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda. E os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devorará” ( Jo 2:16 -17).
Da mesma forma, Cristo, como Filho sobre a sua própria casa, foi um servo gentil, obediente, conforme o expresso nas Escrituras: "Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?" ( Is 42:19 ).
Quem é cego, surdo e perfeito? A resposta está no verso 1: "EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios" ( Is 42:1 ).
Ser cego, surdo e perfeito aponta para condição, e não para questões circunstanciais como a emoção ou o sentimento. Cristo é o servo do Senhor em quem Deus se apraz. E Jesus foi ungido com o espírito do Senhor porque, como servo, tinha que tirar da prisão os presos “Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, e para luz dos gentios. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:6 -7).
Quando Jesus disse: "Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim...”, estava anunciando as boas novas de salvação. Qualquer que se fizesse servo de Cristo, ou seja, tomasse sobre si o jugo de Cristo, aprenderia d’Ele, o servo (humilde) gentil (manso) de coração, consequentemente, tais pessoas encontrariam o descanso prometido por Deus.
Jesus não disputava uma cadeira na galeria dos humildes que a humanidade elegeu para si com pessoas como Ghandi, Madre Paulina, Madre Tereza de Calcutá, etc. Quando Jesus disse: "... sou manso e humilde de coração...” ( Mt 11:29 ), estava se apresentando aos seus ouvintes como Aquele que se submeteu a vontade do Pai como servo, ungido (escolhido, eleito) a pregar boas novas que dá liberdade aos cativos “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” ( Is 61:1 -2).
- Jesus continuou sendo o servo do Senhor quando disse: "... sou manso e humilde de coração...” ( Mt 11:29 ).
- Jesus continuou manso e humilde quando expulsou os cambistas do templo (Jo 2:15 ).
- Jesus não deixou de ser humilde quando se apresentou como o ‘Eu Sou’ que existia antes mesmo que Abraão existisse"Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou" ( Jo 8:58 ).
- Jesus continuou humilde após se apresentar a Pilatos "Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz" ( Jo 18:37 ).
- Jesus não perdeu a humildade após se declarar Mestre e Senhor "Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou" ( Jo 13:13 ).
- Ao dizer ser o Filho de Deus, Jesus não faltou com a verdade e nem perdeu a sua condição de humilde, pois continuou sendo o servo (ταπεινος tapeinos) do Senhor "Àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?" ( Jo 10:36 ).
- Mesmo após dar testemunho de Si mesmo, Cristo continuou sendo o servo do Senhor, ou seja, humilde e manso de coração "Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai que me enviou" ( Jo 8:18 ).
- Cristo, o Verbo eterno se esvaziou a si mesmo ao tomar a forma de servo se fazendo semelhante aos homens "Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens" ( Fl 2:7 ). Mas, tomar a forma de servo não é o mesmo que ser servo. Porém, Cristo após se achar na forma de servo, ou seja, semelhante aos homens, humilhou-se a si mesmo sendo obediente até a morte "E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz" ( Fl 2:8 ).
Tomar a forma de servo é se fazer homem, mas ser servo (humilhar a si mesmo) é obedecer.
Onde está o segredo da humildade? Na obediência! Ao obedecer a vontade do Pai resignando-se a morrer na cruz, Cristo humilhou-se a si mesmo fazendo-se servo.
Além de Cristo humilhar a si mesmo se fazendo servo apresentando-se como cordeiro sobre a cruz, os seus algozes negaram-lhe um julgamento justo "Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra" ( At 8:33 ; Is 53:8 ).
O que se depreende da frase em comento, como do livro ‘Humildade – A Beleza da Santidade’, ambos produzidos pelo Pr. Andrew Murray é que ele não compreendeu o que é humildade do ponto de vista bíblico.
Quem se humilha será exaltado
Em dois momentos que Jesus censurou os escribas e fariseus, foi dito: "E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado" ( Mt 23:12 ; Lc 18:14 ).
O texto não diz que os cristãos são aqueles que são humilhados, no sentido de serem desprezados. Jesus enfatizou que aquele que se humilha é que será exaltado, ou seja, se humilha aquele que se sujeita a Deus "Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte" ( 1Pd 5:6 ).
À época de Cristo um homem livre estava na mais alta posição, se contrastada a sua condição social com a de um escravo. Como alguém poderia ‘humilhar’ a si mesmo? Se fazendo servo!
Como se humilhar a si mesmo do ponto de vista bíblico? Se fazendo servo de Deus. E como tornar-se servo de Deus? Obedecendo a sua ordem? E qual a sua ordem? Que creiais naquele que Ele enviou.
"Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou"( Jo 6:29 );
“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).
Daniel foi um homem que se humilhou diante de Deus. Como? Primeiro ele se aplicou a compreender o que o profeta Jeremias havia profetizado (Dn 9:2 ), e ao querer colocar em prática o que compreendeu, estava se humilhando, ou seja, se fez servo de Deus "Então me disse: Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras (...) Mas eu te declararei o que está registrado na escritura da verdade" (Dn 10:12 e 21).
Já o rei Belsazar, apesar de saber tudo o que o seu pai, o rei Nabucodonosor, passou por não reconhecer que Deus é o Altíssimo, não se fez servo de Deus "E tu, Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o teu coração, ainda que soubeste tudo isto" ( Dn 5:22 ).
O servo do Senhor não pode ter a iniciativa de falar de si mesmo, antes deve seguir o exemplo do apóstolo Paulo: "Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras" ( Rm15:18 ). Para fazer os gentios obedientes, o apóstolo Paulo não ousou falar coisa alguma que Cristo não houvesse feito por intermédio do apóstolo.
Cristo como servo falou as palavras de Deus conforme Deus havia estabelecido sem alterá-la em nada "Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou" ( Jo 8:28 ). E porque Jesus teve o cuidado de falar conforme o Pai ensinou? Porque Ele sabia que o mandamento de Deus é a vida eterna, e alterar o mandamento de Deus produz morte "E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito" ( Jo 12:50 ).
Ao crer em Cristo o apóstolo Paulo se humilhou a si mesmo, pois se fez servo de Cristo. Ao perseverar anunciando o evangelho tal qual aprendeu, o apóstolo permanecia na posição de servo, pois somente anunciando tal qual aprendeu os outros seriam exaltados "Pequei, porventura, humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus?" ( 2Co 11:7 ).
Obediência estrita ao conteúdo do evangelho é a essência da auto humilhação, e não questão de caráter, como aponta Murray“Vamos estudar o caráter de Cristo até nossa alma estar cheia de amor e admiração por Sua humildade” Andrew Murray, Série Riquezas de Cristo - Humildade – A Beleza da Santidade, Título do original em inglês: Humility - The BeautyofHoliness © 1994 Christian LiteratureCrusade, EUA © 2000 CCC Edições; Tradução: Alessandra Schmitt Mendes.
Obediência não diz de um feitio moral, senão o reino de Deus estaria vetado às meretrizes e publicanos. ‘Obediência’ ou ‘se fazer servo’ está em que se faça o que foi determinado, como se lê: “Mas, que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer” ( Mt 21:28-32).
A Bíblia apresenta a desobediência de Adão como a ofensa contra Deus que trouxe a queda da humanidade e a obediência de Cristo como causa da justificação, de modo que a salvação é substituição de ato, obediência pela desobediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos”( Rm 5:19 ).
Por não compreender que a humildade de Cristo teve relação exclusiva com o fato de Ele ser o servo obediente é que surgem colocações como: “Cristo é a humildade de Deus incorporada na natureza humana: o Amor Eterno humilhando-se a Si mesmo, revestindo-se com as vestes da mansidão e da bondade para vencer, e servir e nos salvar. Como o amor e condescendência de Deus fazem Dele o benfeitor, e auxiliador e servo de todos, assim, Jesus, por necessidade, se tornou a Humildade Encarnada. E, assim, mesmo no centro do trono, Ele é o manso e humilde Cordeiro de Deus”Idem.
Cristo foi humilde porque se sujeitou a Deus como servo. Mas, a quem o Altíssimo se sujeitaria para ser humilde? Há humildade em Deus? Deus deixou de ser bom (ἀγαθός agathos)? Ora, o predicativo ‘bom’ quando aplicado a Deus significa aquele que é superior, de cima, nobre, em contrate com aqueles que são de baixo, ralé, inferiores, significado que não contempla a ideia do homem do nosso tempo que acha que Deus é bonzinho, condescendente, etc. "E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos" ( Mt 19:17 ).
“18 αγαθοςagathos uma palavra primitiva; TDNT 1:10,3; adj 1) de boa constituição ou natureza. 2) útil, saudável 3) bom, agradável, amável, alegre, feliz 4) excelente, distinto 5) honesto, honrado” Strong
Por não compreender que o termo ‘humildade’ na Bíblia faz parte de uma linguagem utilizada para se fazer compreender diante dos homens à época, ou seja, homens que não pertencem ao nosso tempo, é que o Pr. Murray fez a seguinte colocação: “É nesse estado de mente, nesse espírito e disposição, que a redenção de Cristo tem sua virtude e eficácia. É para trazer-nos para essa disposição que somos feitos participantes de Cristo. Esta é a verdadeira abnegação, para a qual nosso Salvador nos chama: o reconhecimento de que o ego não tem nada de bom em si mesmo, exceto como um recipiente vazio que Deus tem de preencher, e de que sua pretensão de ser ou fazer qualquer coisa não deve, nem por um momento, ser permitida. É nisto, acima e antes de todas as coisas, que consiste a conformidade com Jesus: nada ser e nada fazer de nós mesmos, para que Deus seja tudo” Idem.
Sendo Cristo o ente santo gerado de Deus, em tudo semelhante aos homens, significa que o seu ego não tinha nada de bom em si mesmo? E os que crêem em Cristo, portanto, gerados de novo participantes da natureza divina, não possuem nada de bom no ego?
Cristo era participante da natureza do seu Pai, Ele era bom porque seu Pai é bom. Primeiro era ‘bom’ no sentido de ‘bem nascido’, ‘distinto’, ‘nobre’, segundo, porque Cristo era benevolente.
É um erro entender que o mal decorre do ego do indivíduo, pois o mau se instalou no homem decaído por causa da barreira de separação (pecado) que alienou o homem de Deus, o bom e o bem supremo. O conhecimento do bem e do mal que tornou o homem como Deus não é a causa do mau, portanto, não se deve afirmar que o ego não tem nada de bom em si mesmo.
Leia a seguinte definição de Ego:
“Ego é termo da psicanálise que aponta para o eu de cada indivíduo, a essência da personalidade. A principal função do ego é harmonizar os desejos com a realidade, e depois harmonizar os desejos e a realidade com as exigências presentes nos valores da sociedade. O ego define a personalidade, filtrando os conteúdos do inconsciente impedido que passem para o campo da consciência" Teoria psicanalítica < https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_psicanal%C3%ADtica > Consulta realizada em 17/03/2014.
Tudo que o homem é e realiza possui relação com o ego. Mesmo o salvo tem ego, pois Deus jamais anula o indivíduo, mesmo após o evento do novo nascimento. O ego faz parte da massa, que Deus, o oleiro, tem poder para fazer vasos para honra. O ego não é sinônimo de altivez, orgulho, etc. Não há como falar em homem se não considerarmos o ego. Se excluir o ego do homem, o homem deixa de ser homem.
O Pr. Murray chegou a conclusão de que Cristo negou o seu ego após listar alguns versos onde aparece o advérbio de negação ‘não’, como se vê:
"O Filho nada pode fazer de Si mesmo" ( Jo 5:19 ); "Eu nada posso fazer de Mim mesmo (...) O Meu juízo é justo, porque não procuro a Minha própria vontade" (v. 30); "Não aceito glória que vem dos homens" (v. 41); "Eu desci do céu, não para fazer a Minha própria vontade" ( Jo 6:38 ); "O Meu ensino não é Meu" (Jo 7:16 ); "Não vim de Mim mesmo" (v. 28); "Nada faço por Mim mesmo" (Jo 8:28 ); "Não vim de Mim mesmo, mas Ele Me enviou" ( Jo 8:42 ); "Eu não procuro a Minha própria glória" (v. 50); "As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim mesmo" ( Jo 14:10 ); "A palavra que estais ouvindo não é Minha" (v. 24).
A análise de um psicólogo com base nestes versículos daria a ideia de que Jesus estava negando o seu ego, porém, o que dizer dos versos em que Ele enfatiza o ‘Eu’?
"E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede" ( Jo 6:35 ); "E dizia-lhes: Vós sois de baixo, eu sou de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo" ( Jo 8:23 ); "Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados" ( Jo 8:24 ); "Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou" ( Jo 8:58 ); "Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens" ( Jo 10:9 ); "Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas" ( Jo 10:11 ); "Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá" ( Jo 11:25 ); "Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" ( Jo 15:5 ); "Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou" ( Jo 13:13 ).
Após ler estes versos, seria Jesus narcisista?
Que dizer das seguintes palavras: “Elas mostram o que Cristo considerou como o estado de coração que Lhe cabia como o Filho do Pai. Elas nos ensinam o que são a natureza e vida essenciais dessa redenção que Cristo cumpriu e agora transmite. É isto: Ele não era nada para que Deus fosse tudo. Ele renunciou a Si mesmo totalmente, com Sua vontade e Suas forças, para que o Pai trabalhasse Nele. De Seu próprio poder, Sua própria vontade, Sua própria glória, de toda a Sua missão com todas as Suas obras e Seu ensinamento — de tudo isso, Ele disse: "Não sou Eu, não sou nada. Eu Me dei totalmente ao Pai para trabalhar; não sou nada, o Pai é tudo"” Idem.
Jesus não disse as palavras acima, ou buscou apregoar a ideia expressa pelo Pr. Murray. Ora, João Batista foi quem procurou se diminuir, e não Cristo "É necessário que ele cresça e que eu diminua" ( Jo 3:30 ).
Cristo não disse que não era nada, antes Ele disse: "Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" ( Jo 15:5 ). Jesus não disse ‘eu me dei totalmente ao pai para trabalhar, antes Ele disse: "E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" ( Jo 5:17 ).
Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da 'cegueira' e 'surdez', sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.
Alienação ou depravação
Após ler o artigo ‘Os cinco pontos’ do Rev. Alderi Souza de Matos, especificamente o subtítulo ‘Depravação Total’, fez-se necessário comentar o evento da criação do homem e analisar o que chamam de depravação total.
Assim se expressou o Ver. Alderi: “A Bíblia diz que Deus criou o primeiro homem, Adão, à Sua imagem e semelhança. Deus fez um pacto com esse homem a fim de que, através da obediência aos Seus mandamentos, este pudesse obter vida. Contudo, o homem falhou desobedecendo a Deus deliberadamente, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelando-se contra o seu Criador. Este pecado inicial de desobediência (conhecido como a Queda do Homem) resultou em morte espiritual e ruptura na ligação de sua alma com Deus, o que mais tarde trouxe também sua morte física. Sendo Adão o representante de toda a raça humana, todos caímos com ele e fomos afetados pela mesma corrupção do pecado. Tornamo-nos objetos da justa ira de Deus e a morte passou a todos os homens” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos < https://ipbo.org.br/cincopontos.html > Consulta realizada em 23/09/13.
O Rev. Alderi diz que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, no entanto, o apóstolo Paulo esclarece a exposição acerca da criação do homem que consta do Gênesis dizendo que Adão foi criado à imagem de Cristo, e não a imagem e semelhança do Deus invisível “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).
O apóstolo Paulo deixa claro que Adão é a figura daquele que havia de vir, ou seja, através das Escrituras sabemos que Cristo homem é o que veio na plenitude dos tempos, portanto, a imagem que foi dada ao primeiro homem é a imagem do Cristo que haveria de vir ao mundo.
Quando Cisto foi manifesto aos homens na terra, manifestou-se em carne, e não em glória. A imagem que Adão recebeu foi a de Jesus Cristo homem, e não a imagem de Deus, visto que Deus é espírito. Para saber mais, acesse o artigo “A criação do homem e a encarnação de Cristo” < https://www.estudobiblico.org/estudos-biblicos/comentario-biblico/artigos/769-a-criacao-do-homem-e-a-encarnacao-do-cristo >.
Através do mandamento: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17), Deus alertou que havia a possibilidade de o homem abrir mão da comunhão que possuía com o Criador.
O fim da comunhão com Deus seria tão funesto que foi nomeada morte. Separação que o homem não pode remediar, e que emprestou o nome ao evento ‘descer ao pó da terra’. O homem se preocupa com o ‘descer ao pó’ como se fosse o mais grave evento para a existência do homem, e muitos não sabem que a separação de Deus pode perdurar pela eternidade.
Enquanto possuía comunhão com Deus não havia nenhuma obrigação para o homem, mas se decidisse comer do fruto da àrvore do conhecimento do bem e do mal, a comunhão com Deus estaria cortada (morte).
Deus é vida, e a comunhão com Ele é vida, portanto, estar alienado d’Ele é morte. A ideia de morte no mandamento que foi dado no Éden significa separação de Deus, alienação, consequência muito mais gravosa e danosa para o homem do que o término das funções vitais, que é o descer ao pó (separação dos entes queridos) “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16- 17); "No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás" ( Gn 3:19 ).
A ofensa de Adão (conhecida como a Queda do Homem) resultou em separação (morte), ruptura entre o Criador e a criatura. A criatura continuou existindo, no entanto, após a ofensa, uma parede de separação foi erguida. O homem tornou-se separado de Deus, perdeu a liberdade que havia na comunhão "Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça" ( Rm 6:20 ).
Por causa da ofensa a terra foi amaldiçoada, a mulher foi apenada a ter filho com dores e o homem a comer do suor do seu rosto até tornar para o pó da terra, isto porque o homem foi tomado do pó da terra. É neste ponto que surge o conceito de morte física, que não pode ser confundida com a morte espiritual que é alienação de Deus ( Gn 3:19 ).
Adão é a cabeça da raça humana e, através da desobediência dele toda a humanidade foi afetada. Por causa da ofensa de Adão a humanidade tornou-se filha da ira e da desobediência, e a alienação passou a todos os homens. Toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão e, por isso, todos os homens nascem alienados da Vida.
A queda de Adão escancarou uma porta larga pela qual todos os homens entram quando nascem. Esta porta larga dá acesso a um caminho largo que conduz os homens à perdição ( Mt 7:13 ). Por causa da ofensa de Adão todos os homens que veem ao mundo são ímpios, pois se desviam de Deus desde a madre. Andam errado desde que nascem, pois estão em um caminho largo que os conduz à perdição ( Sl 58:3 ).
Em Adão desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos, pois toda a humanidade estava na coxa de Adão ( Hb 7:9 -10), e neste quesito não há distinção de carne e sangue. Tanto judeus quanto gentios tornaram-se impróprios para a glória de Deus ( Sl 53:3 ; Rm 3:9 ).
Com a queda, os homens passaram a ser descritos como escravos do pecado, portanto, filhos da desobediência, herdeiros da ira.
Ser escravo do pecado não é ser escravo da própria natureza. É equivocada a concepção de que alguém é escravo de si mesmo, antes um escravo é aquele que, mesmo contra a sua vontade está sob domínio de outrem.
O pecado alcançou o senhorio por intermédio do mandamento santo, justo e bom que foi dado no Éden. Foi através do mandamento dado no Éden que o pecado tem força para dominar a humanidade, pois sem o mandamento não existiria o pecado "Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado" ( Rm 7:8 ).
Sem o mandamento que diz: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, não haveria alienação, morte, separação entre Deus e os homens, mas por causa da ofensa, veio a morte por força do mandamento divino que não pode ser invalidado "Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei" ( 1Co 15:56 ).
Ora, toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão, ou seja, a morte. Não existe nada mais grave do que a alienação de Deus. Mas, me surpreende a concepção de que os homens nascem ‘totalmente depravados’, ou seja, a concepção e o conceito ‘extensivamente maus’ “Toda a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão e por isso todos nascemos totalmente depravados e espiritualmente mortos. A morte espiritual não quer dizer que o espírito humano esteja inativo, mas sim que o homem é culpado (tem um passado manchado) e corrupto (possui uma natureza má). A depravação total não quer dizer que os homens são intensivamente maus (que somos tão maus quanto poderíamos ser), mas sim que somos extensivamente maus (todo o nosso ser, intelecto, emoções e vontade estão corrompidos pelo pecado)”Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos.
A colocação do Rev. Alderi começa com o equivoco de afirmar que a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão, sendo que a bíblia demonstra que o homem herdou a condenação: alienação, separação de Deus. No Novo Testamento, o termo grego traduzido por culpa (1777 ενοχος enochos de 1758; TDNT - 2:828,286; adj 1) constrangido, sob obrigação, sujeito a, responsável por 1a) usado de alguém que está nas mãos de, possuído pelo amor, e zelo por algo 1b) num sentido forense, denotando a conexão de uma pessoa seja com o seu crime ou com penalidade ou julgamento, ou com aquilo contra quem ou o que ele tem ofendido 1b1) culpado, digno de punição 1b2) culpado de algo 1b3) do crime 1b4) da penalidade 1b5) sujeito a este ou aquele tribunal i.e. a punição a ser imposta por este ou aquele tribunal 1b6) do lugar onde a punição é para ser sofrida) Dicionário Strong, aparece em conexão com a ideia de punição, o que difere do conceito jurídico recente de culpa, que deriva das intenções.
Quando encontramos na bíblia que o homem é culpado, não significa que a Bíblia está levando em conta as questões de foro íntimo do indivíduo como certo e errado, conhecedor ou ignorante, motivos e intenções, etc. O termo culpado aponta somente para a penalidade imposta.
Um jurista entende que a humanidade herdou a culpa de Adão, mas a Bíblia demonstra que o homem herdou a condenação"Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus" ( Jo 3:18 ).
Mas, no que consiste a condenação? Alienação, separação, morte. Ora, todos os homens nascem separados da vida que há em Deus, portanto, mortos. A penalidade da desobediência é única: certamente morrerás. Na penalidade não está inclusa a ideia de depravação.
O que querem dizer com ‘depravado’? Por que a necessidade de enfatizar a ‘depravação’ com o termo ‘totalmente’. Por que a necessidade de inserir um novo termo para ilustrar a condição da humanidade se o termo morte demonstra com clareza a condição do homem?
O homem não possui um passado manchado, antes, segundo a Bíblia, é o homem que está manchado, ou seja, maculado, impróprio para comunhão com Deus. O homem não possui uma natureza má, antes o homem é apresentado na Bíblia como sendo mau "Se vós, pois,sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos..." ( Mt 7:11 ).
Surpreende-me a colocação de que os homens não são ‘intensivamente’ maus, e sim, extensivamente maus. Quando comparo com o que Jesus disse: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisasaos vossos filhos..." (Mateus 7 : 11), verifico que nenhuma das duas premissas resistem à verdade.
Quando Jesus diz: “Se vós, sendo maus...”, indica que a plenitude do ser é má, ou seja, está comprometida. Se houvesse como mensurar o mau que decorre da ofensa, e esse mau fosse mínimo, mesmo assim o homem estaria aquém da gloria de Deus. Por que? Porque Deus é luz e não há n’Ele trevas nenhuma ( 1Jo 1:5 ).
A morte não comporta intensidade de modo que dizer que o homem é totalmente depravado é sem significado. O homem está morto em delitos e pecados e é mau, o que contraria a assertiva do Rev. Alderi.
Por outro lado, Jesus demonstra que, apesar de os seus interlocutores serem maus, sabiam dar boas coisas aos seus filhos ( Mt 7:11 ), o que demonstra que os homens não são extensivamente maus, como afirma o Rev. Alderi.
Ora, apesar de serem inteiramente maus, o intelecto dos fariseus não foi afetado, pois davam aos seus filhos boas dádivas. A emoção não foi afeta, pois o ato de dar boas dadivas aos filhos demonstra que o pecado não tolhe o forte vínculo emocional entre pai e filho.
Observe que, apesar de os fariseus serem maus, caso o filho deles pedisse pão, jamais dariam uma pedra. Ou, se o filho pedisse um peixe, jamais dariam uma serpente, o que evidencia que a vontade do homem não foi comprometida após a queda.
O que foi comprometida foi a relação do homem com Deus. Antes da queda havia comunhão, liberdade e vida, após a queda instalou-se a morte, perdeu-se a comunhão e o homem tornou-se escravo do pecado.
No instante após comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão passou à condição de morto para Deus, alienado, separado, etc. A morte foi a penalidade estabelecida na lei: certamente morrerás. O homem não ficou extensivamente mau após a queda visto que não há no mandamento dado no Éden a penalidade ‘certamente ficarás extensivamente mau’.
Após a queda Adão não praticou nenhuma maldade que pudéssemos indicar que ele tornou-se tão mau quanto poderia ser, e nenhuma atitude dele após a queda indica que o seu intelecto, emoções e vontade foram corrompidos, porém, uma coisa é certa: ele estava completamente separado de Deus.
A morte espiritual é alienação de Deus, mas isto não significa que, por estar ‘separado de Deus’ o homem é ‘extensivamente mau’, ou seja, que o intelecto, as emoções e a vontade do homem estão corrompidos pelo pecado.
Há o mau proveniente da ofensa de Adão e o mau proveniente do fruto da árvore do conhecimento. Temos que divisar bem o que é ser mau por causa da ofensa de Adão, e o que é ter o conhecimento do bem e do mal proveniente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que estava no meio do jardim.
Através do seu intelecto, sentimento, emoções e vontade o homem pode executar intentos nobres e bons, como também pode executar ações reprováveis e más. Tanto o que faz boas ações quanto o que faz más ações estão alienados de Deus e, diante de Deus estão em pé de igualdade, pois o mais reto dos homens diante de Deus é como um espinho, e o mais justo como uma cerca de espinho ( Mq 7:4 ).
Quando a Bíblia afirma que o homem é mau, temos que entender o conceito de mau assim como entendemos o conceito de trevas. Deus é luz, e o homem sem Deus é trevas. Dentro do mesmo princípio, Deus é bom e o homem sem Deus é mau.
Quando dizemos que Deus é bom, temos que entender o conceito ‘bom’ segundo a concepção do homem da antiguidade, e não com o olhar e o sentimento do homem moderno. Na Bíblia ‘bom’ (aghatos) vincula-se à nobreza, e o conceito de mau que se aplica ao homem é o de vil, baixo, ralé. Ou seja, há uma barreira de separação entre Deus e os homens, não porque o homem é maldoso e Deus é bondoso, antes porque a natureza de Deus é distinta da do homem, este inferior e aquele superior.
Quando a bíblia diz que o homem está separado, alienado de Deus, estabelece um conceito de totalidade. Não há como estar ‘parcialmente’ alienado. Não há como apor uma adjetivação na condição do homem, como ‘totalmente’ morto, ‘plenamente’ morto, ‘incomparavelmente’ morto, etc.
Mas, muitos adeptos da reforma protestante apresentaram o conceito da depravação total, dizendo que os homens são extensivamente maus, ou seja, que o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem.
A ofensa afetou a relação entre o homem e Deus, já o intelecto do homem, bem como as emoções e vontade adquiriram um novo ingrediente: o conhecimento do bem e do mal. O evento negativo que afetou o homem foi a alienação de Deus, porém, adquirir o conhecimento do bem e do mal não pode ser considerado como algo negativo, visto que o próprio Criador é detentor deste conhecimento.
O fato de o homem desprezar a palavra de Deus o deixa entregue a um sentimento perverso de modo que praticam coisas inconvenientes ( Rm 1:28 ), porém, as coisas inconvenientes que praticam não é o que os tornam escusáveis diante de Deus.
O pecado está na desobediência de ter comido do fruto, e não no conhecimento do bem e do mal que o homem adquiriu por ter comido do fruto do conhecimento do bem e do mal. Conhecer o bem e o mal não é pecado, visto que Deus é conhecedor (saber)do bem e do mal (Gn 3.22) e n’Ele não há trevas nenhumas. Pecado é a condição do homem após a ofensa.
O pecado é a condição imposta pela lei em função da ofensa, condição que impossibilita que o homem restaure a comunhão com seu Criador. Por causa da morte que mantém o homem preso ao pecado, o homem natural por si mesmo é incapaz de reatar a comunhão com Deus.
Mas, diante da impossibilidade do homem, Deus tomou a iniciativa de salvar a humanidade. Por intermédio de Cristo Jesus, Deus tomou a providência necessária para que o homem volte a ter comunhão com Deus.
No Éden Deus deu um mandamento que preservaria a condição do homem em comunhão com Deus, com o advento de Cristo, o último Adão, Deus deu um novo mandamento que restaura a comunhão com Deus.
E qual é este mandamento? Encontramos o mandamento de Deus estampado nas Escrituras: "E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento" ( 1Jo 3:23 ).
Em todos os tempos Jesus é o único caminho que reata a comunhão dos homens com Deus, pois Jesus foi dado para este fim"E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" ( At 4:12 ). No entanto, a humanidade, no afã de se salvar promovem inúmeras religiões na tentativa de que Deus lhes seja propício, porém, essas tentativas são inócuas, pois o homem natural por si mesmo não pode agradar a Deus. Somente a justiça agrada a Deus.
Além de dizerem que a ‘depravação total’ significa que ‘o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem’, muitos que seguem a doutrina produzida na reforma protestante alegam que o homem natural é totalmente incapaz de crer em Deus, pois está morto, cego e surdo para as coisas espirituais.
Ora, primeiro analisaremos esta alegação sob o prisma da nação de Israel, lembrando que Deus anunciou através do profeta Isaias que estendeu a suas mãos o dia todo a um povo rebelde "Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos" ( Is 65:2 ).
Como pode ser isto? Apesar de Deus saber que o povo de Israel era totalmente incapaz de crer por estarem mortos, cegos, surdos e com o intelecto, as emoções e a vontade comprometida pelo pecado, estendeu a mão aos filhos de Jacó? Seria um tremendo contra censo! Apesar de Deus saber que o homem é completamente inabilitado para atendê-Lo, faz um convite de salvação e estende a mão? "Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos" ( 1Co 14:33 ).
Como Deus pode acusar o povo de Israel de não querer ouvi-Lo, se, na verdade, o povo era completamente surdo e cego?"Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvira lei do SENHOR" ( Is 30:9 ).
Não querer ouvir é completamente diferente de ser surdo, ou seja, impossibilitado de ouvir. Estar morto é uma condição, não querer ouvir é atitude rebelde.
Como é possível Deus clamar ao povo que volte, se o povo era surdo? "Vai, pois, e apregoa estas palavras para o lado norte, e dize: Volta, ó rebelde Israel, diz o SENHOR, e não farei cair a minha ira sobre ti; porque misericordioso sou, diz o SENHOR, e não conservarei para sempre a minha ira" ( Jr 3:12 ).
Ora, a Bíblia é clara em demonstrar que os filhos de Israel podiam ouvir. Primeiro porque Deus lhes dirigiu a palavra. Segundo porque eles podiam ouvir ou deixar de ouvir "Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes" ( Ez 2:7 ); "Mas, quando eu falar contigo, abrirei a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o Senhor DEUS: Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir, deixe; porque eles são casa rebelde" ( Ez 3:27 ).
Já no Novo Testamento, quando Jesus conversa com Marta, irmã de Lazaro, disse: "Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá" ( Jo 11:25 ). Mesmo os ‘mortos’ podem ouvir e crer, e se crerem, viverão, ou seja, voltarão a ter comunhão com Deus "Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão" ( Jo 5:25 ); "Ouvi, e a vossa alma viverá"( Is 53:3 ).
Isaias profetizou que o povo que andava em trevas e que habitava nas regiões da morte viu uma grande luz, demonstrando que os homens, apesar de estarem mortos (alienados de Deus), pode ver "O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz" ( Is 9:2 ).
Deus estendeu as suas mãos todos os dias anunciando a seguinte mensagem aos ‘mortos’: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ). Como posso afirmar que a mensagem era para os ‘mortos’? Porque se desse ouvidos (inclinar os ouvidos) e viesse a quem anuncia a mensagem alcançaria vida.
Só é possível passar a viver quem está morto, portanto, é anunciado aos mortos a possibilidade de viverem se derem ouvidos a voz de Deus.
Primeiro é necessário que o autor da mensagem tenha poder para dar vida. Em segundo lugar é necessário que a mensagem seja anunciada, pois se não há quem pregue, não há como crer. Em terceiro lugar é necessário ao homem morto inclinar os ouvidos, o que conduzirá o homem a Deus (vinde a mim). Quando o homem dá ouvidos, ou seja, ouve, volta à comunhão com Deus, terá vida dentre os mortos.
O que dissemos acima, o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos:
“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Mas digo: Porventura não ouviram? Sim, por certo, pois Por toda a terra saiu a voz deles, E as suas palavras até aos confins do mundo. Mas digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira. E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, Fui manifestado aos que por mim não perguntavam. Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” ( Rm 10:8 -21).
Como havia uma barreira de separação entre Deus e os homens, o homem não podia aproximar-se de Deus e nem Deus do homem. Se Deus se aproximasse do homem após a queda, violaria a sua própria palavra e comprometeria a sua justiça e santidade. Já o homem não podia aproximar-se pela falta do conhecimento necessário, o que foi satisfeito quando Deus enviou o seu Único Filho como mediador "Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si" ( Is 53:11 ).
Para ser justo e justificar o homem, Deus enviou ao mundo Jesus Cristo homem na condição de mediador entre Deus e os homens. Por intermédio de Cristo, o Verbo de Deus, foi estabelecido um novo e vivo caminho para que o homem volte à comunhão com Deus.
O homem não é cego e nem surdo. A surdez e a cegueira são figuras especificas utilizadas pelos profetas para fazer referencia ao povo de Israel "Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver" ( Is 42:18 ).
Como é possível o apóstolo Paulo afirmar que é possível entender a divindade pelas coisas criadas se o homem está impossibilitado de ver? “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas...” ( Rm 1:20 ).
Na Bíblia você encontrará os termos ‘surdo’ e ‘cego’ utilizados como figuras para fazer referencia aos filhos de Jacó. O povo de Israel acreditava que via e ouvia ( Jo 9:39 -41), ou seja, entendia que eram guia dos cegos e dos que estavam em trevas ( Rm 2:19 ), porém, se admitissem que eram cegos, seriam como o servo do Senhor: perfeitos! “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves” ( Is 42:19 -20).
O povo de Israel era tido por cego e surdo não porque eram portadores de deficiência visual e auditiva, antes porque ouviam e viam, mas não obedeciam “Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves” ( Is 42:20 ).
Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da 'cegueira' e 'surdez', sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.
Após a queda Adão morreu. Estava separado de Deus em função da ofensa. No entanto, quando Deus chamou Adão dizendo: - “Onde estás?”, apesar de morto, Adão disse: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me” ( Gn 3:10 ). Os ouvidos do primeiro homem que morreu estava em pleno funcionamento.
Mas, para quem os profetas disseram estas palavras: "Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono" ( Is 56:10 ); "Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos" ( Is 59:10 ). Não era para os judeus?
Observe o que diz o Rer. Alderi: “A depravação total também significa que o homem possui uma inabilidade total para restaurar o relacionamento com seu Criador. Por causa da depravação, o homem natural, por si mesmo, é totalmente incapaz de crer verdadeiramente em Deus. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais. Desde a Queda o homem perdeu o seu livre-arbítrio e passou a ser escravo de sua natureza corrompida e por isso ele é incapaz de escolher o bem em questões espirituais. Todas as falsas religiões são tentativas do homem de construir para si um deus que lhe seja propício. Porém, todas essas tentativas erram o alvo, pois o homem natural por si mesmo não quer buscar o verdadeiro Deus” Idem.
A cegueira e a surdez espiritual são figuras que se aplicam ao povo de Israel, porém, a doutrina calvinista da ‘depravação total’ utilizam figuras que tratam do povo de Israel para descrever a humanidade, e por isso dizem: ‘O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais’.
No entanto, quando as Escrituras diz: "Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos" ( Is 43:8 ); "Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver" ( Is 42:18 ), ela aponta para os que receberam a lei, e não aos gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).
Os Cânones de Dort (1618-1619)
Os Cânones de Dort, ou cânones de Dordrech, intitulados formalmente como ‘A Decisão do Sínodo de Dort sobre os Cinco Pontos Principais de Doutrina’ em disputa na cidade holandesa de Dordrech, em 1618/19, conhecida também como os Cinco pontos contra os Remonstrantes, registra a seguinte ideia no primeiro ponto:
“1. Todos os homens pecaram em Adão, estão debaixo da maldição de Deus e são condenados à morte eterna. Por isso Deus não teria feito injustiça a ninguém se Ele tivesse resolvido deixar toda a raça humana no pecado e sob a maldição e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo: ‘... para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus... pois todos pecaram e carecem da glória de Deus...’, e: ‘...o salário do pecado é a morte...’ ( Rm 3:19- 23; Rm 6:23 )”.
Os autores do Cânones de Dort no afã de rebater a doutrina arminianista cometeram o equivoco de não observar que a assertiva paulina: ‘... para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus’, tinha por alvo os judeus, e não a humanidade. É certo que todos pecaram em Adão. É certo que todos estão debaixo de maldição e condenados à morte eterna. Também é certo que se Deus não houvesse resgatado o homem não haveria injustiça n’Ele.
O erro está em utilizar a passagem bíblica de Romanos 3, verso 19 para embasar a assertivas acima, visto que o apóstolo Paulo estava incluindo o povo judeu sob o pecado e a condenação. Que todos pecaram e carecem da glória de Deus é fato, porém, os judeus se consideravam privilegiados por serem descendentes da carne de Abraão.
Censurando os judeus, o apóstolo Paulo diz: “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ), demonstrando que, o que exporia a seguir depunha contra os judeus, incluindo-os debaixo da maldição do pecado.
Após apresentar a vantagem e a utilidade do povo judeu ( Rm 3:1 -2), o apóstolo Paulo demonstra que em nada eram diferente dos gentios ( Rm 3:9 ). Neste contexto, todas as afirmações do apóstolo Paulo são absolutas no sentido de demonstrar a inutilidade da circuncisão para ser salvo.
Dai a conclusão: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).
Se a lei foi escrita para os que estavam debaixo da lei, significa que o povo de Israel também estava sob condenação, de modo que todo mundo é condenável diante de Deus por causa da ofensa de Adão.
Quando é dito: “... pois todos pecaram e carecem da glória de Deus...’, devemos considerar a inclusão dos judeus sob a maldição do pecado e, subsidiariamente, subentende-se que os gentios são pecadores. A ênfase do texto, porém, está nos judeus.
A exposição do apóstolo Paulo foi necessária para conscientizar o povo de Israel da sua real condição. Israel era nomeado povo de Deus, o que dava a entender que era uma nação constituída de homens que não eram pecadores.
Ler a carta de Paulo aos Romanos como se fosse uma carta direcionada apenas aos gentios é ficar alijado do sentido exato do texto, e a compreensão ficara distorcida. O apóstolo Paulo só fala aos gentios a partir do capítulo 11 da carta aos Romanos"Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério" ( Rm 11:13 ), enquanto os capítulos iniciais foram escritos para os cristãos judeus “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus...” ( Rm 2:17 ).
No segundo ponto do Cânones de Dort, fica demonstrado que Deus manifestou seu amor ao enviar o seu Filho, Jesus Cristo:
“2. Mas ‘Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo...’, ‘...para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" ( 1Jo 4:9 ; Jo 3:16 ).
No ponto três do Canones de Dort tem-se algumas distorções que decorre de uma má leitura que já demonstramos no ponto um:
“3. Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem muito alegre a quem e quando Ele quer. Pelo ministério deles, os homens são chamados ao arrependimento e à fé no Cristo crucificado. Porque ‘...como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?...’ ( Rm 10:14- 15)”.
A Bíblia demonstra que os homens necessitam de comunhão com Deus, e não que os homens devam ser conduzidos à ‘fé’.
A Bíblia demonstra que há uma barreira entre Deus e os homens, e não uma barreira entre os homens e Cristo, que é a ‘fé’ manifesta. Seria um contra senso Deus enviar um mediador e haver uma barreira entre os homens e o mediador.
É um absurdo entender que há uma barreira entre o pecador (homens) e o mediador (Cristo), ou que há uma barreira entre o pecador e o sacerdote como sugere a asserção: ‘Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem...’.
Se entendemos que Cristo é a fé manifesta ( Gl 3:23 ), é sem sentido afirmar que os homens devam ser conduzidos à fé. Ora, foi Deus que enviou o seu Filho ao mundo.
Se entendemos que a ‘fé’ é a mensagem anunciada que tem por tema o Cristo ( Jd 1:3 ; Rm 1:5 ), o mensageiro é porta-voz da fé aos homens para que eles possam por intermédio de Cristo serem conduzidos a Deus.
Ora, Deus em sua misericórdia, enviou o seu Filho amado ao mundo, ou seja, a todos os homens, e não ‘a quem e quando Ele quer’. O apóstolo Paulo é claro: "Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade" ( 1Tm 2:4 ; Jo 3:16 ).
O homem precisa ser conduzido a Deus, e para isto Cristo veio. O homem não precisa ser conduzido a Cristo, antes a Deus, e Cristo é o mediador. Cristo foi posto como um novo e vivo caminho, e pelo seu corpo o homem tem acesso a Deus.
O Canones de Dort faz distinção entre ‘arrependimento’ e ‘fé’ por causa do conceito deturpado de arrependimento oriundo da concepção católica que decorre do termo ‘penitência’.
Arrependimento é mudança de concepção, abandono de uma ideia para abraçar uma nova, de modo que, quando ocorre o arrependimento, consequentemente, o homem abraça a fé. Se abraçou a fé, significa que se arrependeu, e vice-versa, pois arrependimento é ‘metanoia’, mudança de concepção, conversão.
No ponto 4 temos a seguinte assertiva:
“4. A ira de Deus permanece sobre aqueles que não creem neste Evangelho. Mas aqueles que o aceitam e abraçam Jesus, o Salvador, com uma fé verdadeira e viva, são redimidos por Ele da ira de Deus e da perdição, e presenteados com a vida eterna ( Jo 3:36 ; Mc 16:16 )”.
Basta ao homem crer em Cristo segundo as Escrituras que aceitaram a Jesus como salvador com uma fé verdadeira e viva. A fé verdadeira e viva é a verdade do evangelho, e aquele que crê no evangelho tem uma fé verdadeira e viva.
O ponto cinco possui duas incongruências com as Escrituras:
“5. Em Deus não está, de forma alguma, a causa ou culpa desta incredulidade. O homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados. Mas a fé em Jesus Cristo e também a salvação por meio d’Ele são dons gratuitos de Deus, como está escrito: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus...’ ( Ef 2:8 ). Semelhantemente, ‘Porque vos foi concedida a graça de...’ crer em Cristo ( Fp 1:29 )”.
Deus não trata com a humanidade a questão da culpa, antes da condenação. Foi um só homem que pecou, e todos pecaram. Um só homem ofendeu, e a condenação veio sobre todos os homens, mesmo a humanidade não tendo transgredido à semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).
A humanidade está condenada por causa da ofensa de Adão, e este é o pecado que alienou o homem de Deus. Sobre a humanidade pesa a condenação por causa da ofensa de Adão, portanto, não há que se falar que ‘o homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados’.
A segunda incongruência se dá pela má leitura do texto de Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus...” ( Ef 2:8 ). O apóstolo Paulo estava explicando que os cristãos são salvos graciosamente mediante a fé, ou seja, mediante Cristo, pois Ele é a fé que ‘havia de se manifestar’. O termo ‘fé’ no versículo não é o que os tradutores vertem por ‘crer’. Não se trata do verbo ‘fé’, antes é a forma substantivada, um recurso linguístico (figura de linguagem) para fazer referência à pessoa do Cristo ( Gl 3:23 ).
A salvação em Cristo, a ‘fé’ manifesta não vem dos homens, é dom de Deus, pois Jesus mesmo disse a mulher samaritana:“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ). Cristo é o dom de Deus, a fé que havia de se manifestar e foi manifesta na plenitude dos tempos.
Já o que foi escrito aos Filipenses diz respeito a batalhar pela fé ( Jd 1:3 ), pois além de terem crido em Cristo, a eles foi concedido defender a mensagem do evangelho “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fp 1:29 ).
No ponto 6 do Canones de Dort, ao afirmar a doutrina da eleição e da reprovação calvinistas, é enfatizado que Deus faz distinção entre homens:
"6. Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros. Isto procede do eterno decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que Ele "...faz estas cousas conhecidas desde séculos." e que Ele "faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade..." ( At 15:18 ; Ef 1:11 ). De acordo com este decreto, Ele graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo seu justo juízo, Ele deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza. E aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa distinção entre os homens que estão na mesma condição de perdição. Este é o decreto da eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. Ainda que os homens perversos, impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível conforto para as pessoas santas e tementes a Deus”.
Quando afirmam que ‘Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros’, contrariam a bíblia, visto que Cristo é a fé manifesta que Deus deu a todos os homens. Cristo é descrito como o Sol nascente das alturas, e o sol nasce sobre todos sem distinção, pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para todo aquele que crê seja salvo ( Lc 2:32 ).
A fé foi manifesta salvadora a todos os homens, pois Deus deseja que todos se salvem "Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade" ( 1Tm 2:4 ); "Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis" ( 1Tm 4:10 ); "Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam" ( At 17:30 ).
Deus não faz distinção entre homens e homens, pois todos entram neste mundo por uma mesma porta, a porta larga (Adão) e alienados estão de Deus "Quanto menos àquele, que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de suas mãos" ( Jó 34:19 ; Dt 10:17 ; Dt 16:19 ). Todos entram por Adão, ou seja, todos são filhos da desobediência, para que Deus use igualmente de misericórdia para com todos "Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia" ( Rm 11:32 ).
Por causa da separação, Deus estabeleceu Jesus Cristo homem como mediador entre Deus e os homens, de modo que não há ninguém que seja especial diante da mensagem do evangelho, e ninguém que seja preterido ao ouvi-lo "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem" ( 1Tm 2:5 ).
Ao escrever aos Gálatas, o apóstolo Paulo deixou claro o motivo pelo qual todos foram encerrados debaixo do pecado: "Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes" ( Gl 3:22 ). Não importa se judeus ou gregos, a promessa que e segundo a fé é para os que creem.
Deus faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade ( Ef 1:11 ), e é da vontade de Deus salvar os crentes, ou seja, os que creem na mensagem do evangelho, que é poder de Deus. Na pregação está o poder de Deus e, todos quantos creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus "Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentespela loucura da pregação" ( 1Co 1:21 ; Jo 1:12- 13).
A salvação é para os que creem na pregação, pois na mensagem anunciada por Cristo e os apóstolos está o poder de Deus para salvação ( Rm 1:16 ; Hb 5:9 ).
A salvação não é segundo o que propõe a predestinação calvinista, de que o homem é salvo antes mesmo de ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação. Ao ouvir e crer em Cristo o homem é salvo, e após ser salvo é designado eleito de Deus para ser santo e irrepreensível, predestinado a ser conforme a imagem de Cristo Jesus "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos" ( 1Jo 3:2 ).
Alienados
Como já verificamos, a força da lei dada no Éden somada a ofensa de Adão fez surgir a parede de separação (pecado) entre Deus e os homens. O termo utilizado para descrever esta separação é alienação, diferente da ideia que o termo ‘depravação total’ transmite.
O termo depravação tem relação com o que o homem realiza do ponto de vista moral, já a alienação demonstra a quebra da comunhão com Deus. Do ponto de vista da moral é possível mudarmos o nome ‘depravado’ através do adjunto ‘totalmente’, mas se falarmos da relação entre Deus e os homens sob o domínio do pecado, o termo ‘alienado’ não comporta o adjunto ‘totalmente’.
O pecador está separado de Deus, e ponto. Nem mais nem menos. Utilizarmos o adverbio totalmente, ou completamente, é sem valor, pois o termo alienado encerra uma ideia.
O equivoco de tentar demonstrar que o homem está totalmente depravado surge da má leitura que fizeram da explicação de várias passagens do Antigo Testamento que o apóstolo Paulo citou na carta aos Romanos.
Quando o apóstolo Paulo explicou aos cristãos convertidos dentre os judeus que eles não eram melhores que os gentios, porque ambos os povos estavam debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), citou os Salmos: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:10 -12).
Os judeus, por serem descendentes da carne de Abraão, terem a lei e a circuncisão, consideravam que eram melhores que os gentios, porém, o apóstolo Paulo utilizou os Salmos para demonstrar que as Escrituras protestavam contra os judeus e não contra os gentios.
Apesar de os gentios serem pecadores, o alvo das Escrituras era os judeus. Apesar dos judeus comparecerem continuamente no templo para orar e oferecer sacrifícios, Deus protestava continuamente contra eles de que não eram justos, não entendiam a vontade de Deus, não buscavam a Deus. Juntamente judeus e gentios se extraviaram em Adão, são imundos e não fazem o bem.
Após citar outras passagens bíblicas, o apóstolo Paulo enfatiza a essência da sua abordagem: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ). Os únicos que possuíam uma boca dilatada eram os judeus, pois confiavam na lei, mas a própria lei foi dada para que eles também estivessem de bocas fechadas, pois eram condenáveis diante da lei e estavam alienados de Deus "Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?" ( Jo 7:19 ; Rm 2:27 ; ).
A alienação da humanidade é igual para judeus e gregos. Ambos os povos carecem da glória de Deus. A única diferença entre judeus e gentios é que foi dado aos judeus a lei para conduzi-los a Cristo ( Rm 3:2 ). Não existe uma alienação maior ou uma menor. Não existe alienação total ou parcial. O homem quando no pecado está separado, alienado, e ponto!
É de se estranhar que a doutrina calvinista utilize termos como ‘totalmente’, ‘completamente’, para enfatizar a condição do homem separado de Deus. No entanto, desconsideram o fato de que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que TODO aquele que crê não pereça, ou o fato de que Deus quer que TODOS os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. Nosso Deus é Deus de paz e não de confusão